terça-feira, 20 de outubro de 2009

Alguém quer CARONA pra MISSA???

Um caso de PEDOFILIA intriga a cidade de Hamelin, em especial o rigorosíssimo delegado Monteiro.

Toda a imprensa está ávida pra apedrejar o grande culpado.

Mas não há provas contundentes contra o único suspeito, há apenas a palavra de um MENINO meio perturbadinho das ideias.


É essa a trama da peça “Hamelin”, do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, que eu fui convidado pra assistir num desses finais de semana aê.

Protagonizado por Vladimir Brichta, essa peça se sustenta na ótima interpretação do eXcelente elenco de atores, todos eles com uma longa estrada na cena teatral, que ora interpretam personagens adultos, ora personagens infantis...

Mas a trama com essa pegada meo "policial", apesar de bastante envolvente, não é o ponto forte da peça.

O que me pegou mesmo foi a estrutura do texto, a forma como a peça é “montada”.

Tenho prestado muito a atenção nessa parte da estrutura textual de uma peça, até por motivos evidentes, já que tb sou dramaturgo e tenho pesquisado muito sobre a minha arte (agora, com o Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council bombando na minha vida, essas minhas pesquisas só se intensificaram).

E depois de ter lido no prefácio do livro “Para Trás e Para Frente”, do David Ball (livro essencial pra quem pratica a arte teatral), Michael Langham fala de um “hábito” que adquiriu quando trabalhou com um dos seus mestres no Birminghan Repertory Theatre, de Londres, e que consiste em imaginar a peça de volta ao seu texto original no exato instante em que ela está se desenvolvendo no palco (sem nunca, no entanto, ter lido o texto da tal peça antes).

Eu tenho pirado em cima dessa vibe, me perco percebendo a estrutura do texto enquanto assisto uma peça teatral e, tb, no que o dramaturgo colocou nas RUBRICAS que, por ventura, tenham sido ignoradas ou adotadas pelo diretor.


E o + bacana em “Hamelin” é que as rubricas do texto entram literalmente em cena.

E isso não é uma sacada do diretor dessa montagem, o André Paes Leme.

Tá lá, na própria estrutura do texto do Juan Mayorga (eu nunca li essa peça mas foi isso o que contou o Vladimir Brichta pra mim e pra outros amigos em comum após esse espetáculo em cartaz lá no CCBB).

Ou seja: a RUBRICA é um elemento fundamental nessa peça, entrando em cena, afirmando & reafirmando a AÇÃO das personagens.

Aliás, quase todo o elenco faz a vez do COMENTADOR, que é uma espécie de narrador que vai contando o que rola na rubrica...

Eu saquei isso quando um dos tais comentadores se refere ao TEMPO do teatro.

Achei muito legal essa presença da rubrica, ela sendo dita, destacada e até explicada para a plateia, às vezes até de uma forma didática d+.

Mas acredito que, por isso mesmo, essa coisa meio didática do texto só torna o espetáculo + vibrante, estabelecendo um diálogo direto com o espectador, quebrando a tal da “quarta parede”, enfim...

E até dá uma certa originalidade pra peça, acrescenta um algo a + em uma arte onde quase tudo já foi dito, feito e experimentado.


Os diálogos do texto são muito bem construídos, Juan parece dominar essa dinâmica, pois ora ele prende uma informação, ora ele solta, mantendo uma curiosidade de quem assiste e vai se envolvendo aos poucos com essa proposta investigativa da peça.

Tb há uma ironia desconcertante em torno de verdades construídas, o delegado apela pra uma guerrinha de nervos em suas acareações, fica repetindo sempre as mesmas perguntas, típico de quem quer alcançar uma verdade em cima daquilo que ele acha ser a verdade absoluta.

E, no final, vem a pergunta que não se cala nem a pau, Juvenal: mas, afinal de contas, qual é a verdade mesmo? As verdades são ou não são construídas ao gosto da freguesia? Ou simplesmente temos o poder de construir verdades em cima de mentiras que achamos convenientes e bem + fáceis de digerir?

Com essa peça, impossível não lembrar do finado Michael Jackson e daquela clássica história da Escola de Base aqui de Sampa, que marcou o noticiário braZuca nos Anos 90, onde neguinho jogou pedra na Geni antes de possuir qualquer tipo de prova sobre a autoria do crime e que, dias depois, tudo foi desmentido e os tais acusados - que tiveram suas vidas destroçadas durante o processo - foram inocentados.

Parece até que existe um prazer sádico em algumas pessoas de condenar os outros sem prova alguma.

Mas Freud deve explicar, pena que ele e o MJ já bateram as tamancas e devem estar curtindo horreres seus caldeirões tripleX lá naquele condomínio fechado e vipérrimo, o tal do Hades Village.


Voltando pra peça em questão, eu curti muito as luminárias espalhadas pelo cenário, que dão todo um CLIMA pra peça...

Os próprios atores acendem e apagam conforme a atmosfera da CENA, uma sacada muito bem bolada.

E a cenografia é minimalista, pouca coisa em cena, a peça se firma nas excelentes atuações.

Aliás, atores são muito bons mesmo, com destaque pro tal de Oscar Saraiva, que interpreta pai e filho, mandando muitíssimo bem principalmente no papel do menino que, segundo as investigações do delegado Monteiro, sofreu o tal abuso sexual de um pedófilo que sempre lhe oferecia carona pra MISSA.

No mais, “Hamelin” é uma boa peça, talveZ falte um pouco de ritmo, mas cumpre sua função, principalmente pelo texto que, como já disse antes, é bastante instigante.

Vladimir Brichta tb tá muito bem em CENA, longe daquele estereótipo que, infeliZmente, a televisão fez dele, do galã pegador, sempre mostrando o corpinho sarado & tralálá...

Nada contra um corpinho sarado, me gusta mucho, inclusive!

Mas, se o dono do corpo sarado tiver talento e, pelo menos, souber como se atua num palco, a gente jura que aplaude no final.

Até pq tens uns que se dizem ATORES por aê que só querem saber de fazer ponta em “Malhação” e, se vc perguntar pras essas criaturinhas toscas quem é BoB Wilson, eles acham que é alguma atração do Cartoon Network.

Só que esse não é, definitivamente, o caso do Vlad, que é um ator meeega talentoso assim como a maioria dos atores made in Bahia...

Nem da mulher dele tb que, aliás, é uma simpatia de pessoa e certamente vai arrasar na pele da estrela Dalva de Oliveira na próxima minissérie global!!!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Medéia MONGA versus Jasão TESÃO

Na seXta, eu tb fui ver uma OUTRA tragédia clássica do nosso velho coleguinhas das antigas, ele mesmo, tio Eurípedes!!!

Mas, dessa vez, MEDÉIA é absurdamente transformada pelo povo do FOLIAS numa espécie de MONGA da pá-virada e, por isso mesmo, + insana, + vingativa e trocentas vezes + trágica do que aquela outra que CAUSOU horrores em Corinto.

E eu, que já gosto pra caralho de Medéia (leio e releio essa peça sempre quando acabo um namoro), curti + ainda essa versão tipo MONGA do Playcenter.E coisa funciona + ou menos assim:

A tenda do Folias é aberta pro público meia-hora antes da meia-noite, as barracas desse “circo notívago” já estão abertas muito antes da tal “neta do SOL” entrar em CENA surtando com a sua nada DOCE sede de VINGAÇA.

Personagens absurdos recepcionam uma platéia que, em princípio, não sabe bem o que faZer, estão todos apreensivos, pois se Medéia já é PIRIGUETE por si só, o que esperar de uma Medéia-Monga, nada songa, e ainda por cima acompanhada por típicas criaturinhas saídas da Noite do Terror do Hopi Hari!!!

Daí tem a barraca do E.T., a barraca dos irmãos SIAMESES que vendem beijos na boca (aki, siameses numa versão menino & menina, pra vc escolher se quer beijar desde o Brad Pitt até Angelina Julie, mas eu beijei os dois pq eu sou meio “tarado” por siameses, kikiki), a barraca da sereia tosca, a barraca do matemático perturbado, etc., etc., e taiZ!!!

Enquanto transitam por essas barraquinhas coloridinhas (a cenografia & os figurinos dessa peça são incríveis), os + ansiosos não deiXam de se perguntar:

E a tal da Medeia, hein?

Cadê essa criatura descompensada?

Será que ela foi se aconselhar com a Família Nardoni???

E dá-lhe uma BRÊJA pra acalmar os ânimos da plateia (sim, duas gurias ficam por lá vendendo cervejinhas geladíssimas & povo já caindo de boca na birita enquanto dona Medeia não dá as caras).

Mas eis que Medeia surge no palco principal, numa aparição totalmente MONGA, com todos aqueles truques de espelho e tudo + que uma mulher-FERA que se preze tem direito.Duas atrizes se “revezam” no papel da tal neta do SOL esnobada pelo Jasão Tesão...

Uma toda vestida de “amiga da ONÇA”, tigresa de unhas NEGRA e íris cor de MEL, que paga BOQUETE num pirulito tutti-fruti (na minha terra chamamos esse doce de CABEÇÃO e eu adorava chupar esse bagulho quando era KID, o que Freud até agora não conseguiu diagnosticar, pois meu caso é grave, broW).

Já a outra arrasta seus filhos pelos cabelos, uma mãe selvagem, louca pra se vingar e foder com a vida do seu Jasão Tesão.

Engana-se, porém, quem achar que, no meio dessa patacoada toda, Medéia não cumpre friamente a sua DOCE vingança.

Muito pelo contrário, a tal da Medeia-MONGA dá BAFÃO o tempo todo & toca o seu PUTEIRO em cima do tal Jasão-tesão.

E o fim dessa montagem do Folias é muito SEM noção, passei mal de tanto rir, Medeia cumpre o seu destino trágico, mas sem a carruagem de FOGO pra sua escapadela final.

Até pq essa Medéia-Monga é braZuca, velho!

Ou seja: nada de carruagem faiscando ou efeitos especiais de penúltima geração.

Afinal de contas, isso aqui não é cirque du soleil e fazer teatro no Brasil é quase uma jornada heróica, viu!E a nossa amiga Medéia, essa monga barraqueira, não quer saber + de papo com plateia nenhuma, manda todo mundo se foder, sair fora e ir pra casa do caralho ou por PQP, que ela tá com enXaqueca até na medula, pois matar filhote pra se vingar de marido não é como preparar nuggets no micro-ondas (HAHAHA).

No +, eu ADOREI, recomendo, prepare-se pra GARGALHAR bastante!!!

Ah, tb leve bastante moedinhas de 50 cent’s, que essa Medeia-Monga, o seu Jasão tesão & todas as outras atrações das tais barraquinhas circenses são beeem mercenárias e ninguém faz nada de graça ali, não senhor!

Levanta a cabeça, infortunada!!!

Lembro que quando fiz um curso sobre Tragédia Grega com a tia TEREZA MENEZES (a nossa querida teatróloga, dramaturgista e autora do imprescindível “Ibsen e o Novo Sujeito da Modernidade”), na hora do intervalo sempre rolava uma “zuação básica” entre eu & as meninas (Luciana Gonçalves, Bárbara Ismênia, Rita NiZZan, entre outras coleguinhas de oficinas teatrais) com essa marcante FRASE dita por HÉCUBA, a rainha vencida de um reino outrora conhecido pela grandeZa dos seus muros intransponíveis.

“Levanta do chão DURO esta cabeça, infortunada! Apruma teu PESCOÇO! Não mais existem TRÓIA nem rainha!”

E, deixando qualquer brincadeirinha de lado, devo diZer agora que me amarro muitíssimo nesse teXto toda veZ que leio, dos argumentos apresentados pelas personagens, do confronto entre a mater dolorosa Hécuba com uma impassível Helena de Tróia, além do sofrimento atroZ de Andrômaca e o desespero da perturbada Cassandra juntamente com todas aquelas mulheres aviltadas pela guerra.

Sei que grandes diretores braZucas já a encenaram mas, até seXta passada, eu nunca tinha visto nenhuma montagem – nem aqui em Sampa, nem em qualquer outra cidade do nosso planetinha pré-aquecido – dessa clássica tragédia do tio Eurípedes, o grande mestre em “exacerbar os sentimentos”.

Vi e gostei muitíssimo do que pude constatar pessoalmente na montagem assinada pelo diretor Zé Henrique de Paula, em cartaZ ali no Teatro Sérgio Cardoso.

“Quantas razões eu tenho para CHORAR nesta calamidade a PERDA de meus filhos, meu marido, minha querida PÁTRIA... Ai de mim!”

Tudo bem que eu até já tinha algumas informações de que, nessa peça, o diretor transpôs toda a tragédia de Hécuba e cia. pros campos de concentração nazista da Segunda Guerra Mundial, que o elenco aprendeu alemão e trálálá...

Mesmo assim, essa montagem conseguiu me surpreender, me tocou profundamente, não sei se por causa de minhas raíZes que tb tem um pé fincado naquelas bandas largas do Oriente Médio...

De qualquer forma, o que eu vi em CENA foi um puta trabalho de encher os olhos (literalmente), coisa de gente GRANDE, que sabe o que faz, com uma entrega visceral de todo o elenco, totalmente dentro da proposta do espetáculo...

Resumo da MELOPÉIA: “As Troianas”, do Núcleo Experimental, tá INCRÍVEL, uma peça teatral do tipo imperdível, muito FODA mesmo!!!

“Aproximo do chão meus joelhos doloridos e golpeio a terra com as mãos antes fortes fechadas!”

No início dessa montagem, rola uma projeção de uma cena entre Poseidon & Palas Atena no melhor estilo “Casablanca”...

Logo depois, as tais “troianas” – que nessa montagem, como já disse antes, são JUDIAS – chegam descarregadas como animais do vagão de um trem e enfrentando toda a perversidade de soldados nazistas.

E, mesmo sendo totalmente falada num idioma que não dominamos, essa peça consegue nos comunicar fluentemente porque trata de uma temática universal, trata da dor da PERDA.

E a compreensão fica melhor ainda pra quem já leu essa tragédia, dá pra identificar facilmente cada uma de todas aquelas viúvas cativas que surgem em CENA.

“Levai-me, conduzi-me na marcha FORÇADA. Comecemos a triste JORNADA até nosso CRUEL cativeiro!”

Ah, a cena da caiXinha de música, com uma das atrizes dançando balé no vagão, é realmente de se tirar o chapéu...

Tb a cena do menininho que faz o Astiânax, filho do Heitor com Andrômaca, é muito comovente...

O menino parece ter saído daquele filme “A Lista de Schindler”, sei lá, um filme que eu vi com o coração faZendo biquinho pra não desaguar no choro (sou EMOtivo meeesmo, eu assumo meus defeitos, e totalmente trágico tb, buáááááá).

Portanto, leve o seu LENÇO com rendas de bilro que eu aposto que vc vai sair dessa peça meio desidratado de tanto lacrimejar.

Isso mesmo, rola uma CATARSE final, ou até mesmo uma reflexão fodida sobre a tal da INTOLERÂNCIA, essa porra devastadora que nos ataca diariamente e que só a percebemos quando torres siamesas são derrubadas por aviões-bomba ou quando guerras mundiais acontecem, espirrando sangue no nosso quintal.

Pois como diria o tal judeu da CRUZ: “perdoai-vos, Senhor! Eles NÃO sabem o que fazem!”

Ou sabem???

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

ParasiTa aTemporal!!!

SeXta passada, enquanto o país inteiro parava pra assistir o mesmo final de sempre de uma novela das oito, que na verdade é das NOVE (há + de 40 anos, final de novela é sempre a mesma bosta, né?), eu fui fazer um programinha beeem + interessante...
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Fui ver PARASITA, uma peça do CARALHO protagonizada por Clôvis Tôrres & Luciana RamanZini, ambos sob a direção do tb dramaturgo Lucianno MaZZa.
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A peça, de autoria da Gabriela Mellão, apresenta uma relação de DEPENDÊNCIA entre dois seres atemporais e, ao mesmo tempo, vítimas de um tempo que os fortifica e os fragiliza no decorrer da peça.
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O texto de PARASITA é sarcástico, ácido mesmo, com uma poesia cruelmente crua, falando – entre outras coisas - de como gostamos de certos tipos de massagens, principalmente quando o nosso EGO é massageado.
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A solidão tb é analisada nesse teXto genial, sempre dentro daquela perspectiva que torna o chamado “mal do século” uma espécie de SINÔNIMO de abandono (coisa que, por sinal, eu questiono no meu teXto “SIAMESES”, mas isso é um outro & longuíssimo papo).
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E a encenação de PARASITA aposta no MINIMALISMO, dosando na medida eXata momentos de eXtrema delicadeZa & enorme intensidade.
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Mas o que + me emocionou nesse espetáculo teatral foi a interpretação primorosa do CLÓVIS TÔRRES (assim mesmo, com assento agudo e circunfleXo no nome, diferenciado do outros, rs), que rejuvenesce e envelhece no seu personagem sem utilizar nenhum artifício de maquiagem ou coisinha do gênero.
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Sem a menor sombra de dúvida, um puta trabalho de ator, um dos melhores que vi nesse ano. E olha que eu até ando vendo interpretações bem marcantes, como foi o caso dos atores incríveis de "Vau da Sarapaia", "Raptada pelo RAIO", "Memória da Cana", etc.
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Em PARASITA, Clôvis mistura força & sensibilidade com movimentos corporais que prenderam a minha atenção o tempo todo, um tipo de trabalho corporal que só os atores de primeiríssima linha possuem.
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E a tal da Luciana RamanZini tb não fica atrás, muito pelo contrário, é uma atriz a altura do talento do Clôvis...
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Aliás, diga-se an passan, o Clóvis é realmente um TESÃO de ator, merece toda as sedas rasgadas do meu back, pq é um tipo muito raro de ator, do tipo que vc assiste e já te inspira logo uma puta vontade de escrever uma peça pra ele.
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Eu já tinha assistido um trabalho dele em “Maria Mutuca” uns anos atrás, outra interpretação desse cara que eu achei muito FODA de boa, onde ele tb mostrava todo um domínio de movimentos corporais em conjunto com os seus recursos vocais e que foi impossível não aplaudi-lo de PÉ no final.
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E é isso aê: virei fã desse puta ator e juro que ainda me atreVo a escrever uma peça pra ele... hehehe!!!
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

No Doubt

“Dúvida” começa com o Padre Flynn falando de quando a CERTEZA nos abandona e passamos a sentir uma estranha sensação de ter perdido algo que nos conforta, que nos conduz...

Daí vem um sentimento de total desesperança e, consequentemente, o inevitável MEDO.


E enquanto o Padre Flynn prega o seu sermão, a rigorosa Irmã Aloysius caminha sorrateiramente por toda a “nave” da igreja, buscando qualquer vestígio de tudo aquilo que está FORA de seu controle.

Ela não perdoa as crianças que cochilam e cochicham enquanto o padre profere a sua pregação dominical.
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Afinal de contas, Papai do Céu não gosta de crianças danadinhas, isso é coisa do Cão e, se sair da linha, vai arder no fogo do INFERNO que não é Aloca, nem a D-Edge, muito menos a Clash.

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No meio disso tudo, está a Irmã James, uma freirinha meio inocente e um tanto quanto abobalhada, que não sabe se vai ou se fica e que acaba achando meio esquisita a relação afetuosa e protetora que o Padre Flynn mantém com um garoto negro de apenas doze anos.

E uma acusação de PEDOFILIA contra o Padre Flynn seria um prato farto para a Irmã Aloysius, que percebe naquela “denúncia” a oportunidade perfeita de tirar definitivamente uma PEDRA do seu sapato.

Por essa sequência inicial de “Dúvida”, os mais precipitados e maniqueístas cuidarão logo em classificar o padre Flynn como um cara “gente boa”, que representa uma postura + “liberal” ou “progressista” da tal Santa Sé...

Por outro lado, a Irmã Aloysius receberá imediatamente a carapuça de todo o conservadorismo e atraso dessa instituição religiosa, uma espécie de Flora ou a Odete Roitman do Catolicismo (isso é que dar ficar assistindo novelinha pobre), enfim, a criatura certamente poderá ser encarada como a própria fogueira da Santa Inquisição em pessoa.

Mas não, não é essa a questão e “Dúvida” é um filme realmente SURPREENDENTE, exibindo personagens HUMANOS, que talvez até se escondam dentro de uma batina ou qualquer outra forma de rigidez religiosa, negando as suas ditas fraquezas, os seus pecados mais reveladores, ou até mesmo o medo de expor as suas fragilidades, pois não é de bom tom sair por aí dando provas inequívocas que você é um mortal e, provavelmente, conheça a arte de PECAR (“atire a primeira pedra que nunca pecou?”, perguntou uma vez o tal Jesus que não é o da nossa Madonna do pau oco).
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Confesso que, quando “Dúvida” acabou, fiquei de CARA principalmente por causa de cenas desconcertantes como aquela em que a mãe do garoto negro de doze anos fala pra tal Irmã Aloysius sobre a “natureza” de seu filho e que ela não condena a relação dele com o padre Flynn, mesmo que essa relação seja uma relação mais “profunda”, porque ela se sente mais confortável sabendo que seu filho está envolvido com alguém que só vai protegê-lo.
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A cena do travesseiro rasgado, com suas penas de ganso ao vento, numa clara metáfora a “arte” da FOFOCA, também é genial e cutuca com vara grande e grossa todos nós que adoramos dizer que ODIAMOS uma fofoca... Mal-contada, óbvio!
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Outra coisa que tb me pegou nesse filme é que ele não vem com um discursinho babaca de querer enquadrar as pessoas num determinado tipo de rótulo ou qualquer coisa assim (aliás, eu acho mesmo que não existe coisinha mais pobre do que ficar catalogando todo mundo, como se as pessoas fossem limitadas, sem a menor complexidade, acho isso o fim da picada, de uma pobreza inclassificável, sai de RETO, Satanás!).

E é isso aí, “Dúvida” fala de HUMANIDADE no sentido + amplo da palavra.

E vai mais fundo ainda quando fala de INTOLERÂNCIA, uma intolerância que tanto pode ser aquela que não se cansa de fazer picuinhas por coisinhas “menores”, como tb aquele tipo de intolerância que nos aterroriza e até nos deixa indignados, como a notícia dos skinheads que “riscaram” no estilete o corpo de uma brasileira grávida lá pelas bandas de Zurique, simplesmente porque a criatura é estrangeira.

Mas “Dúvida” tb fala de COMPAIXÃO.

E compaixão é mais difícil de engolir em seco...

Afinal de contas, você perdoaria um xenófobo que cortou sua filha grávida ou isso é humanamente impossível???
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Contudo, pra quem se diz católico praticante ou não-praticante, aquela famosa "ladainha" suplica: “perdoa as minhas ofensas assim como eu perdoo os meus inimigos”.

E com ou sem skinheads a compaixão não é uma das tarefas mais fáceis do mundo.

E é disso que “Dúvida” fala.


Mas o filme aborda essas questões sem cair no melodramático ou numa traminha meio piegas.
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E, para que o filme ganhasse a “densidade” e o tom acertado, o diretor John Patrick Shanley não teve a menor dúvida...
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O cara escalou as duas maiores FERAS de Hollywood na atualidade pra protagonizar o seu filme: Meryl Streep & Philip Seymour Hoffman.

E o que falar de Meryl Streep, hein?

Até a minha faxineira sabe que Meryl Streep é a MAIOR, que ela é – nesses nossos tempos escabrosos – o que Vivien Leigh, Greta Garbo e Batty Davis foram em tempos remotos.

Já o Philip Seymour Hoffman é um outro puta ator do caralho.

Lembro que a primeira vez que eu prestei atenção nele foi quando Philip atuou no delicioso “Boogie Nights”...

Ele fazia a “bibinha” da claquete que era “louca” pra catar o pauzão do tal ator pornô que era o protagonista da trama.

Muito foda aquela cena em que o personagem dele começa a suar descontroladamente em bicas, quase passando mal, enquanto o tal ator pornô gravava uma cena de sexo explícito, onde ele comia nada menos nada mais que a bela Julianne Moore.

Anos depois, Philip Seymour Hoffman se consagraria definitivamente incorporando o Capote naquele filme arrasador.

Aliás, “Capote” foi quase uma sessão espírita, pois Philip encarnou perfeitamente todo o veneno, acidez e delicadeza do jornalista que escreveu “A Sangue Frio”.
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Sem falar que eu tô louco pra vê-lo na pele do Pinguim na próxima aventura do Batman...

Se Heath Ledger, que era um tanto quanto cru e inexperiente, foi capaz de fazer o que fez com o seu apetitoso Coringa, já posso até surtar só imaginando o que um ator com cacife de um Philip Seymour Hoffman pode causar dentro de um papel tão insanamente absurdo.

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Pois é, o elenco de “Dúvida” não poderia ser melhor.

O texto também é muuuito bem amarrado, com diálogos cortantes, precisos e que colocam todas as questões que a igreja tem enfrentado nesses últimos tempos e até se negando a discutir.
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E o que pensar de uma igreja que faz vista grossa pra AIDS, pra questão do aborto e que mete VARA nos gays (e o VARA aqui nem é no sentindo prazeroso da coisa, é bom lembrar esse enorme detalhe, viu)???

E eu nem vou perder meu tempo falando de padres pedófilos (deixa isso pro Almodóvar, pois ele tem + conhecimento de causa e sabe transformar a coisa em ARTE).

Mas, enfim, Religião perdeu o seu sentido real e até epistemológico, concorda???
Pois o “religar-se com o Divino” é a última coisa que se pode tentar racionalizar quando se pensa em como a intolerância religiosa domina geral e é o estopim principal das guerras + desumanas que temos presenciado nesse nosso mundinho pré-aquecido.

E, como bem pensam os mais “práticos”, quando NÃO se há certeza de nada é melhor inventar uma guerra e acabar logo com essa lengalenga de compaixão.

Enfim, são coisas dessa nossa humanidade(?) que não dá pra engolir nem na base da reza forte...

Melhor pular esse pedaço do rosário!


Voltando pra “Dúvida”, é comovente a cena final em que aquela mulher, a Irmã Aloysius Beauvier, que é um poço de rigidez, conservadorismo, extremamente retrógrada, rigorosa, dura na queda e o caralho de asa tomando Red Bull, se DESMONTA completamente e confessa que SIM, que ela tem muitas dúvidas, ela é uma mulher CHEIA de dúvidas.

E você, miguxinhooo, ainda tem alguma dúvida sobre si mesmo???

Pois eu duvido SIM, sou a dúvida em pessoa, não gosto de certezas, principalmente as absolutas, elas são artificiais, imprecisas, não me acrescentam em NADA...

Já a dúvida não, a dúvida me estimula muito, me faz correr atrás do que eu quero (e eu NÃO tenho a menor dúvida sobre o que eu quero), a dúvida me faz borbulhar os hormônios, é a dúvida que conduz a minha escrita, o meu texto, o meu subtexto, o meu pretexto, o meu contexto...

Portanto, podem duvidar de mim, mas duvidem muuuuuuuuuuuuuuuuuito mesmo, pois eu já não duvido de + ninguém!!!
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Hello, Kate!!!

Uma mulher extremamente carregada, que anda pesadamente, se arrastando no meio do caminho, como quem carrega sobre si toda a culpa de um mundo inteiro...

Uma mulher que esbarra num garoto de 15 anos em uma tarde chuvosa e sente piedade dele...

Ela ama esse garoto, ama os seus livros, a sua leitura...

E ele lê para ela, ele ama ler para ela, ele a ama depois da leitura ou lê depois de amá-la.

Entre poemas e peças de Tchekhov, como tb os livros de Homero e de Tolstói, essa mulher se permite aliviar a sua estranha dor e encarnar um delicado prazer, que tira dela aquele peso altamente carregado, uma leveza momentânea, quem sabe a insustentável leveza do ser.

O nome dela é Hanna Schmitz, mas isso pouco importa quando ela está ali, na sua banheira ou cama, entrelaçada no sexo daquele garoto que ela ensinou e aprendeu a arte de amar.

Um dia o tal garoto se atreve a perguntar para Hanna se ela o ama realmente.

Por um instante ela vacila mas, logo depois, ela diz que SIM com toda a segurança do mundo.
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"The Reader" está longe de entrar na minha lista de CEM filmes + incríveis que eu já vi até hoje.
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Talvez pq seja um filminho pesado demais e o peso, às vezes, me contamina e é melhor manter uma certa distância dele.

Mas toda a parte inicial desse filme é de uma delicadeza que só uma atriz competente pode carregar nas costas.

E ""The Reader" é tão somente Kate Winslet e + ninguém.

Ela carrega esse filme sozinha, sem medo do peso da sua pesada personagem, com a sensibilidade e segurança que só uma grande atriz possui.

E é ótimo poder constatar na telona que aquela menina meio rechonchudinha, que pegou o Leonardo Di Caprio em "Titanic", se tornou uma atriz de verdade, inteiríssima em cena, atriz de cara limpa, com rugas e pés-de-galinha, uma testa sem botox nenhum, seios sem aquelas bolas siliconadas que deformam todo e qualquer resquício de feminilidade, uma estria aqui, uma celulite acolá e muito TALENTO...

Por isso mesmo, Kate Winslet está absolutamente bela em "The Reader", uma beleza que põe mesa, com aquele seu olhar um tanto quanto confuso, uma segurança que vacila quase sempre, uma culpa que parece ser bem + pesada que seus próprios ombros...

Às vezes, Hanna Schmitz é uma mulher dura, carrancuda, capaz de dizer praquele garoto que ela aprendeu a amar que ele não é nada, não faz a menor diferença na vida dela...

Mas, às vezes, Hanna Schmitz é um poço de fragilidade, uma mulher que ama descaradamente, se entrega sem rédeas, que se esconde numa fortaleza por amar demais e por saber que todo aquele incontrolável sentimento pode ser, talvez, a sua grande perdição.

Culpa por amar demais???

Não se sabe, Hanna não abre a sua boca pra se justificar, ela está presa, presa em si mesma!!!

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Poderia até ZOAR aqui, dizendo que vou fazer agora uma Linha Hanna Schmitz e que, em vez de ficar horas e horas lendo sozinho, poderia chamar aquele meu vizinho delicioso de 17 aninhos (Madame Clessi???) pra ficar lendo pra mim as peças de Sarah Kane, Harold Pinter, Beckett, Moreno e Genet...

Não deixa de ser uma excelente idéia, vou até pensar seriamente nesse caso de polícia (se bem que eu já fiz isso algumas vezes com os gibis do X-Man daquele meu amiguinho judeu, hehehe).

Mas "The Reader" é um filme com uma seriedade tão desconsertante que chega a ultrapassar o terrivelmente jocoso.

Um pouco cansativo em algumas cenas, é verdade!

Mas a primeira parte do filme é muito foda, com o encontro deles, as páginas, as entrelinhas, os pontos de interrogação, as reticências...

Pensei até nas pessoas que eu amei e que, de uma forma ou de outra, tb me influenciaram no meu gosto musical, intelectual, artístico, enfim, sei lá...

Viajei até aquela figura que me chamava pra a casa dele e ficávamos trancados no seu quarto a noite inteira escutando Chico cantar:

"Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir"
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Ou até aquele outro que me emprestou "Cem Anos de Solidão" do Gabo, "A Montanha Mágica" do Thomas Mann e que ficava me chamando de filho da Capitu, pq meu nome se parece com EZEQUIEL e, por causa de um trabalho escolar que a gente fez juntos (eu já até contei esse fato aqui na blogosfera), eu li "Dom Casmurro", e depois "Menino de Engenho" e, no mesmo embalo, "O Mulato", "Cais da Sagração" e a "Ilíada" na tradução incrível do escritor maranhense Odorico Mendes.

Sem falar nas tardes inteiras olhando o sol cair na Baia de São Marcos, ali naquele casarão absurdamente histórico da Rua da Estrela, quando a gente ficava apenas se olhando, sem nada pra dizer pq um olho já te diz tudo, enquanto a Calcanhoto nos dizia:

"Eu vou publicar os seus segredos
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria..."

Publicar seus segredos???

E olha que eu ainda nem pensava em ser um JORNALISTA & DRAMATURGO.

Mas "eu protegi teu nome por amor..." Ou seria "My baby's got a secret"???

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vamos pra Babylon???

Mal tinha começado a amanhecer e Denise ainda estava sentada na sua poltrona em frente aquela enorme JANELA de vidro do seu apartamento com vista aberta para toda a Vila Madá.

Uma quase manhã de um Janeiro desfocado e a BÍLIS de Denise ainda nem havia dado as caras pra trocar uma idéia com ela.

Sempre foi assim, Denise enfiava o dedo na GOELA e se permitia VOMITAR até encontrar uma ponta qualquer do seu VAZIO impreenchível e gozar daquele desconsertante PRAZER de olhar bem na cara de si mesma.
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Denise curtia provocar a sua BULIMIA existencial, mas a BÍLIS dela nunca chegava antes do SOL surgir lá no fundo da paisagem de sua janela blindada pra estragar toda a festa com as suas cores fortes.
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E Denise NÃO gosta de cores fortes.

Ela curte cores frias, bebidinhas geladas e SALIVAS abaixo de ZERO.
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No seu som tocava “É Proibido Proibir”, aquela mesma do pai do Moreno.

Já era a enésima vez que aquela canção se repetia, ensurdecendo as paredes fantasmas daquele prédio antigo na Heitor Penteado.

O som, óbvio, sempre no TALO...

Mas Denise não ouvia nada, estava surda, muda, fora de si.

Do seu COPO sedento se derramava aquela cerveja importada que Denise sempre apreciou sem a menor moderação, cerveja já totalmente QUENTE, melhor ainda, pois VERÃO combina com CALOR...
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E ela estava SÓ naquele quase dia...

Quer dizer, sozinha não, pois Amelie – a sua cadelinha com temperamento de FELINA – lambia com seu típico olhar blasé toda a cerveja quente derramada no assoalho.

Na imensa estante de sua sala, vários livros do Bourdieu.
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No seu laptop, algum pedaço daquilo que será a sua tese de Pós-Doutorado sobre teledramaturgia tupiniquim.
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Nas gavetas do seu criado-mudo, as traças comiam “A BURCA”, a peça teatral que ela mais gosta daquele seu amigo dos velhos tempos da PUC e que tem insistido ultimamente na insana idéia de levá-la pra um ritual do SANTO DAI-ME em pleno Lençóis Maranhenses no próximo CARNAVAL.
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Mas Denise odeia carnaval, odeia a Vai-Vai, isso lá é nome de Escola de Samba, que coisa mais deprimente, vai-vai pra onde, ô, cara-pálida???

E se ela odeia a tal festa da CARNIFICINA, não é propriamente pela festa em si, mas é que a Quarta-Feira de CINZAS sempre chega após o último bloco de colombinas cheiradas e Denise não quer ser CREMADA.

Ela quer ver o seu corpo em DECOMPOSIÇÃO, porque na natureza tudo se TRANSFORMA e Denise não é uma Fênix mas nem por isso ela deixa de ser MUTANTE.


Lá FORA, bem no alto da paisagem ao fundo da janela blindada, um AVIÃO rasgava o céu de São Paulo.

Foi quando Denise desejou estar dentro daquela aeronave e que um pássaro qualquer entrasse pelas turbinas dele, forçando uma aterrissagem em pleno Tietê.
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Já era quase MEIO-DIA e Denise se permitiu morrer por algumas horas de um sono mortificado. Mas ela só tinha 27 anos e acha muuuito CLICHÊ morrer aos 27, todo mundo já morreu aos 27, que puta falta de originalidade morrer aos 27...

Não, deixa pelo menos os 37 anos chegar, pois todo mundo deveria morrer antes dos 40, Denise sempre acreditou nisso.
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Irritada com aquele surto repentino de Retorno de SATURNO, ela bebericou mais um GOLE de sua cerveja quente.
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No som, já não tocava mais a música do nosso Caê devorado pelas BACANTES do Uzyna Uzona.
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Mas era Zeca Baleira que agora estourava os tímpanos da vizinhança de Denise, que não se atrevia a reclamar de absolutamente nada, pois é melhor deixar a fera mansa no seu canto ouvindo “De tudo provar Champanhe, caviar Scotch, escargot, rayban Bye, bye miserê Kaya now to me O céu seja aqui Minha religião é o PRAZER...”.

“Vamos pra Babylon???”, perguntou o tal Baleiro da canção estourada.
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Denise tentou pensar na proposta, mas sua cabeça doía muito, é melhor pular essa parte, fica pra PRÓXIMA, caro Zeca!
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E o céu da janela blindada, pra variar, se mostrava poluído, tanto quanto o tal rio das marginais paralisadas.
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Fazer o quê, né?
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A tal cidade infinita que Denise escolheu se perder sempre foi assim mesmo, afundada na mais degradante das poluições.
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Então é melhor acender uma FUMAÇA logo pra completar aquele clima perfeitamente “transilvânico”, pensou Denise.
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E por que não abrir a janela totalmente, hã?
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Foi isso que ela fez, Denise ABRIU a sua janela blindada e, por alguns instantes, ela se escancarou de braços ABERTOS prum mundo fechado, como um Cristo Redentor pra turista fotografar com suas máquinas digitais compradas no Magazine Luiza.
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Depois daquele surto messiânico, Denise respirou aquele ar IMPURO e seus olhos ressacados se permitiram poluir por quase um dia inteiro...
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Foi quando Denise olhou pro relógio da parede ao lado e já era finalzinho de tarde, pois o tempo não perdoa ninguém, nem os infeliZes...
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Naquele rápido instante, Denise já não tinha mais a menor dúvida: ela era SIM uma mulher completamente POLUÍDA..
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